Charlie, Algernon, as flores e o Mito da Caverna

o texto a seguir contém spoilers sobre o livro Flores para Algernon, prossiga a leitura ciente disso.

“devem estar em erro certos educadores que dizem infundir ciência na alma que não a possui como quem dá vista a olhos cegos.”

O Mito da Caverna em A República de Platão (2018, Nova Fronteira)

talvez seja um pouco desonesto chamar esse texto de resenha, mas as ideias são válidas e abrem mais espaço para debate.

afinal, já papeamos algumas vezes sobre Flores para Algernon e ainda falaremos dele no Meet. na verdade, acredito que é um livro que falaremos enquanto existirmos.

chegando no último relatório escrito por Charlie, em sua última sessão com o Dr. Strauss, na qual ele passa por um devaneio/estado extracorpóreo ou chame como quiser, em que se vê diante da imensidão do universo, diminuto.

sabemos o que está por vir. Charlie sabe. e ainda assim, é assustador.

talvez mais assustador do que o caminho reverso feito por Charlie ao aumentar sua inteligência rapidamente e exponencialmente após a cirurgia: uma nova consciência surgiu, uma que teme perder-se de quem se tornou. Teme a escuridão a qual entendia que Charlie, o antigo Charlie, estava envolto.

Flores para Algernon e o Mito da Caverna de Platão

assim Charlie se lembra do Mito da Caverna, a alegoria contada em A República, de Platão:

E agora as palavras de Platão riem de mim nas sombras das saliências atrás das chamas: – … os homens da caverna diriam que sua ascensão lhe causara a ruína da vista…

revirei as entranhas mentais da época da faculdade, em que fiz a leitura do Mito da Caverna nas aulas de Filosofia. achei insuficiente parti em nova leitura da alegoria.

aqui tem um e-book do Mito que está no Kindle Unlimited e, se quiser um resumo, acessa aqui!

é interessante que logo no começo da Alegoria já há a indicação:

compara com a seguinte situação o estado de nossa alma com respeito à educação ou à falta desta.

ou seja, o mito da caverna vai falar, dentre tantas coisas, de algo que pensamos muito durante a leitura de Flores para Algernon. quem somos, ou como é nossa alma, diante do grau de inteligência e instrução que possuímos. o quanto um afeta e relaciona-se ao outro?

depois de reler o mito da caverna e me empolgar e ler mais alguns capítulos de A República (alguém me segura ahaha), é perceptível como a trajetória de Charlie segue, de certa forma, toda a alegoria.

até mesmo alguns ideais explorados logo após em A República, podem ser vislumbrados em Flores para Algernon.

partindo do básico que a história de Charlie nos traz, ele era aquele indivíduo acorrentado dentro da caverna, vivendo uma realidade dita como falsa, incompleta. e, tão logo de lá saiu, a luz do lado de fora, a realidade, ou o peso do conhecimento, o transformou.

não apenas em alguém com um QI elevado, bem sabemos, mas o transformou por completo, em alguém que evoluiu em termos de inteligência racional.

porém, alguém que, de outro lado, em termos de sentimentos, emoções, ainda era a criança ferida pela família e, especialmente, pela própria mãe.

o olhar do outro e do próprio Charlie sobre si

Charlie era “cego” não apenas do ponto de vista dele próprio, que incutido da ideia de que deveria se esforçar para ser melhor, aceitou o procedimento o qual não tinha completa compreensão da dimensão.

aos olhos dos outros, por seu QI reduzido, era também inferior, vivia nas trevas, uma comparação que ele mesmo faz de si em vários momentos. chegando ao ponto de não ser realmente visto e validado como um ser humano, alguém dotado de capacidades e sentimentos antes da operação.

À luz da alegoria, o caminho de Charlie não poderia ser outro que senão, voltar ao seu estado anterior/inicial. E é aqui que há um ponto de encontro bem interessante com a Alegoria da Caverna.

segundo Platão, o retorno daquele que saiu da caverna não é nada menos do que natural. Mudado sim ele estaria, mas aquela é sua origem e, de certa forma, tanto o saber que ele possuía antes quando o que adquiriu do lado de fora, lhe seriam aproveitados nesse retorno. Ainda que seja necessário um tempo de adaptação para que seus olhos se habituem novamente a escuridão.

Uma vez acostumados, vereis infinitamente melhor que os habitantes da caverna e conhecereis cada imagem e o que representa, porque já tereis visto o belo, o justo e o bom em sua verdadeira essência.

O Mito da Caverna – em A República de Platão (2018, Nova Fronteira)

a história de Charlie para além do Mito da Caverna

ainda que a história de Charlie não se resuma a isso, já que ela passa por várias temáticas, desde a questão da inclusão para pessoas com deficiência neurológica, passando por questões familiares, amizade, amor, autoestima e muito mais, ela versa, em princípio, sobre sermos quem somos.

desculpe a redundância, mas a ideia é essa mesmo. ser quem se é e, ao mesmo tempo, a inegabilidade de que sua essência é imutável, a natureza humana é imutável.

ora, é interessante como o próprio Charlie dissocia sua imagem, existe o Charlie de antes, que o observa e aquele o qual vive as memórias doloridas da infância e da juventude.

de outro lado, há o Charlie de agora, que entende tudo racionalmente e que chega a ser intolerante, não consegue sentir mais empatia, carinho e respeito pelo outro.

é uma dicotomia que alguém que se sentia sobrepujado, excluído e discriminado passe a fazer exatamente o mesmo com os demais quando se vê em situação inversa. afinal, Charlie apenas vive em extremos, como ele bem lembra, é excepcional, em suas duas versões.

aqui seu retorno ao status quo, apesar de natural (platonicamente ou alegoricamente em referência), é sofrido porque uma nova consciência nasceu.

e, qualquer consciência consciente de si, lutará pela vida, seja ela qual for.

o drama não é sobre Charlie ser mais ou menos inteligente, é sobre perder-se em si, já que a cirurgia acabou desencadeando uma fragmentação de sua personalidade.

mas afinal, já imaginou o que seria perder-se de si mesmo? ou quem sabe, perder-se em si mesmo?

o final de Flores para Algernon

ao final do livro surge uma interpretação extensiva que é um tanto quanto mais estarrecedora. não se trata de Charlie retornar à quem era.

no ponto em que o deixamos no livro, no fim de seu último relatório antes de partir para a Residência Warren, é como se reencontrássemos o Charlie dos primeiros Relatórios, tanto no grau de escrita, quanto na consciência que se mostra amável, preocupada com o outro, em ser aceito.

mas, para além disso, é difícil crer que seu estado se manteria dessa forma. como ele demonstra em seu estudo, quanto mais rápida a ascensão, mais rápida a queda. e também, maior.

não apenas Algernon sofreu atrofias e decaiu seu desempenho, como Charlie também. e agora Algernon tem um túmulo para se depositar Flores.

não é impensável que o destino continue a tirar mais e mais de Charlie, até não lhe restar mais nada. e provavelmente um túmulo em que não haverá um Charlie para ir até lá e depositar flores.

P.S. porfavor si você tive uma oportunidadi colo qui umas flores no tumulo du Algernon nu quintau.

deixe seu comentário, coletiver!

Trending Posts

Pesquise no Blog

Categorias

Newsletter

Subscribe For More!

You have been successfully Subscribed! Ops! Something went wrong, please try again.
Edit Template

FALE COM A RETIPATIA