quando finalizei a leitura de Emma, romance de Jane Austen, havia um ar de leveza.
ou, nas palavras mais bem colocadas de Austen, me senti plenamente correspondida
pela perfeita felicidade do casal.
agarrando-me a esse sentimento, que tão poucos romances são capazes de imprimir a mim como Jane Austen o é, passei a pensar nas idiossincrasias dos romances.
não do gênero romance como um todo, mas na ideia de se versar uma história em, bem, uma história de amor.
quando se coloca Emma, tanto quanto outros romances de Jane Austen sob uma lupa, é certo que veremos outros assuntos sendo abordados:
- o papel da mulher na sociedade do século XIX (tenha ela posses ou não);
- os costumes da época;
- a crítica social à instituição do casamento, tanto quanto à família, amizade, relacionamentos e à vida social.
mas, quando retornamos nosso centro às protagonistas, há, geralmente, o fio comum do destino de tais mulheres que se reflete nessas histórias: o casamento.
e por casamento aqui a história verdadeira não é, muitas vezes (e então entra a genialidade das narrativas de Austen), sobre simplesmente encontrar um companheiro.
o foco da trama de Emma: para além do casamento
a trama é sobre o caminho, muito mais do que o que acontece após o felizes para sempre. é sobre o quanto, durante essa “necessária” escolha, a mocinha consegue com que seus desejos, anseios, necessidades e vontades prevaleçam.
quando pensamos em Emma e na considerável facilidade com que a trama segue fluindo a seu favor, o que vem nas entrelinhas é que, para uma mulher de posses, o destino há de ser mais gentil.
basta olhar para as (muitas) irmãs Bennet que será fácil notar esse paralelo ou discrepância das dificuldades. ou, como escreveria a própria Jane,
Mulheres solteiras possuem uma terrível propensão à pobreza.
o casamento, em suas histórias, é mais do que união sagrada: representa para suas personagens, em muitos aspectos, liberdade.
ainda que, ao menos, isso signifique uma condição de segurança financeira.
abro um parêntesis para me recordar de Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf:
A notícia da herança me chegou certa noite quase simultaneamente com a aprovação do decreto que deu o voto às mulheres. A carta de um advogado caiu na caixa do correio e, quando a abri, descobri que ela [a tia] me havia deixado por toda a vida quinhentas libras anuais. Dos dois – o voto e o dinheiro – o dinheiro, devo admitir, pareceu-me infinitamente mais importante.
liberdade sem independência financeira das mulheres é um mito quando se pensa na cultura e na realidade da sociedade ocidental, em vários aspectos.
Virginia Woolf, nascida mais de cem anos após Jane Austen, ainda batia nessa tecla. uma que Jane já transcrevia, de certa forma, em suas histórias. (lembrando que falamos em mulheres brancas europeias, claro).
como Emma se relaciona à história de Jane Austen
assim, há o ponto de encontro com a história da própria Jane Austen, sendo ela mesma um retrato de alguém que não se encaixava nos padrões da época.
e não apenas por buscar sua independência financeira e por não ter se casado, mas por seus modos de agir, falar e ser.
modos estes apagados por sua própria família após sua morte e sendo esta uma das razões pelas quais restou tão pouco de Jane a ser contado para as gerações seguintes.
ainda diante desse apagamento, é interessante pensar como sua voz, ao menos aquela impressa em suas histórias, sobreviveu ao longo do tempo.
isso não ocorreu porque eram histórias de amor, ou melhor, longe disso. o amor é apenas o fio condutor da trama, suas histórias são sobre pessoas e, em especial, sobre mulheres. sobre suas vozes silenciadas, sobre seus afazeres desproporcionais, sobre a posição obrigatória dada a elas pela sociedade.
tanto o é que, em Emma, a crítica não se estende, muitas vezes, apenas a irritante sra. Elton, mas até mesmo à figura mimada e imatura de Emma, quanto a modelo de mulher do século, encarnada por sua irmã, Isabella.
críticas que vão desde a submissão ao marido, à visão das mulheres solteiras, ao cabimento dentro de um papel que, muitas delas sequer sabiam ter sido forjado muito antes de nascerem.
e, interessante, Jane não se opõe ao casamento, ao amor. eles são formas potentes de mudança para suas personagens porque Jane já sabia que o problema, em si, não é era o casamento.
dentro disso, Austen nos propõe o amor como um bálsamo. porque ser mulher no século XIX já era penurioso para que não o alcançasse. ao mesmo tempo, mostra-se um objetivo ao qual ou ela mesma não possuía, ou não conseguiu alcançar do modo como desejava.
a força de Jane Austen através de suas histórias
imagine a força exigida de uma mulher de sua época para firmar-se em suas decisões. em comparação, ainda no século XXI o casamento é símbolo de felicidade e tido como meta de vida para as pessoas e, com fervor especial, às mulheres.
e que fervor exigido para expressar-se em palavras, quando tão pouco estudo lhe fora concedido. Austen recebeu estudos formais apenas até os onze anos, tendo-os iniciado aos sete, por insistência dela, sendo enviada ao colégio para meninas junto à sua irmã Cassandra.
para quem já leu Jane Eyre e conhece a história das irmãs Brontë, o problema das escolas para meninas com condições degradantes e precárias já era costume na época de Jane Austen.
Austen também foi vítima de umas dessas instituições, chegando a ficar à beira da morte, sendo salva por uma carta enviada em segredo à sua família.
certa vez ela escreveu certa vez que essas escolas eram lugares
“onde jovens, pagando um bom dinheiro, enfraquecem a saúde e fortalecem a vaidade”.
Jane Austen chegou a dizer que era
“a mulher mais desinformada que já ousou ser autora”.
na ocasião, estava dispensando a proposta por um reverendo de que ela deveria escrever sobre uma história sobre – pasmem! – um reverendo e suas grandes qualidades!
foi um jeito sutil de Austen se diminuir para caber numa resposta polida. mas, ainda assim, o quão verdadeira não deveriam julgar tal afirmativa?
o mundo de Jane Austen em Emma
o mundo e até o tom narrativo que vemos nas histórias de Jane Austen refletem sua vida, vivência e os lugares pelos quais passou.
Emma surgiu numa época em que suas histórias já agradavam ao público, vendiam, e lhe davam certa segurança financeira. seu sucesso era considerável, já que, ela poderia até não ser fã do Príncipe Regente, mas ele era fã de suas obras.
falando em Príncipe, a Era Georgiana (1714-1830) na qual Jane Austen (1775-1817) viveu e escreveu suas obras foi marcada por guerras ou por sua eminência.
suas obras retratam vez ou outra essa presença, mas, tanto quanto a experiência restrita da autora, acabam por focar-se nas localidades existentes em seus arredores, como a famosa Bath. a própria Austen se viu obrigada a viver por determinado período em Bath, o que aumentou sua antipatia pelo local.
outros reflexos de sua experiência ainda permeiam suas histórias, também em Emma. a adoção de um dos filhos de uma família pobre por parentes ou conhecidos abastados e sem herdeiros.
o caso que ocorre na família Weston, com a adoção de Frank como o herdeiro dos Churchill também ocorreu na família Austen. o irmão da autora, Edward, foi adotado por Thomas e Catherine Knight, primo rico do pai da autora, George Austen.
desse costume até aos bailes, segredos, uma casamenteira muito mequetrefe, uma relação de pai e filha forte e complexa, mansões extasiantes, fofocas e passeios ao ar livre, Emma reflete tanto o lado crítico quanto divertido de Austen.
mostra dos caminhos mais fáceis aos difíceis a serem percorridos pelas damas da época para o que era considerado um bom casamento. sempre bem delineados a partir da sua condição de nascença.
são essas mulheres várias, em suas várias formas, que dão o tom e criam a profundidade que encontramos em Emma.
concluindo
nas palavras de Sir Walter Scott, que resenhou Emma em 1815,
“a autora demonstra seu peculiar senso de humor e conhecimento da condição humana. Em lugar das esplêndidas paisagens de um mundo imaginário, ela apresenta ao leitor uma representação certeira e surpreendente do que acontece todos os dias ao nosso redor.”
por fim, tomo emprestadas as palavras de Fanny Knight, sobrinha de Austen, para finalizar com um floreio:
“Estou o dia todo em Highbury, e tenho a impressão de que acabei de entrar para um novo grupo de conhecidos.”
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