era uma vez um gênio e nosso conceito de felicidade

Recentemente assisti ao filme Era Uma Vez Um Gênio de George Miller e que conta com Idris Elba e Tilda Swinton no elenco. A história nos leva à uma aventura que se passa na linha tênue entre realismo mágico e fantasia.
Cheguei a recomendar o filme no nosso grupinho VIP do Telegram, mas acho que vale trazer algumas reflexões que a história despertou em mim.
Era Uma Vez Um Gênio é narrado por Alithea, personagem de Tilda, que alcançou o que muitos buscam na vida: a plenitude. Feliz à seu modo (afinal, não há outro modo de ser feliz), ela leva a vida entre estudos e sua carreira como narratalogista, viajando vez ou outra para palestrar.
Narratologia é o campo de estudo das narrativas de ficção e não-ficção, feita através de seus elementos e estruturas.
Um dia, em uma viagem a Istambul, ela escolhe uma garrafinha de vidro como presente do seu colega de trabalho. Essa garrafa se revela sendo o clausuro de um gênio que precisa conceder a ela três desejos vindos do coração. Só assim ele ganhará sua liberdade.
Porém, conhecendo muitas histórias de gênios do mundo todo, Alithea sabe que não é uma boa ideia. Afinal, esses pedidos sempre acabam de uma maneira bem ruim para quem os faz.
Invocando memórias narrativas que nos remetem à Sherazade e à uma viagem pelo tempo, com um fio de histórias dentro de histórias que nos levam de volta até Alithea.

era uma vez um gênio é também sobre existir…
Esse é basicamente o enredo do filme e, quando assisti pela primeira vez, além de perceber o jeitinho “nasci cult” do filme, uma frase ficou gravada em minha memória:
“só existimos se formos reais para os outros”
Talvez o debate possível a partir dessa frase seja infindável, mas vou me ater às questões que mais me saltaram aos olhos (e às ideias).
O final feliz do filme é meio torto para a maioria das pessoas, já adianto. Isso porque ele não é do tipo “e viveram felizes para sempre”, já que essa ideia costuma implicar um “viverem juntos para todo o sempre”.
Talvez isso o torne um tanto quanto agridoce para alguns, mas me pareceu serenamente perfeito, adequado à história e um tapa de luva para os padrões de felicidade e relacionamento.
A ideia me leva de volta à Alithea. e à frase que soa tanto enigmática quanto premonitória: se nossa existência depende do outro, de algum modo ou em certa profundidade, são também nossos relacionamentos que validam nossa existência.
Até aí ok, mas a questão toda é que nossa cultura se volta única e exclusivamente para um tipo de relacionamento para a validação da nossa existência.
E você não se engana quando pensa no relacionamento romântico, no amor romântico romantizado. ele é uma verdadeira conditio sine qua non quando estamos falando de felicidade.

da sinopse ao conceito de sozinha e solitária
Lendo a sinopse do filme para escrever essa news, me deparei com uma informação interessante e um pouco fora da minha percepção da história.
Alithea é descrita invariavelmente como uma mulher solitária. Não sozinha, já que ela não está em um relacionamento amoroso, mas solitária.
Esse pequeno detalhe não seria tão pequeno se a própria personagem não fosse aquela que narrasse sua história:
“havia uma mulher apropriadamente feliz e sozinha. Sozinha por escolha. Feliz porque era independente e vivia do exercício de sua mente acadêmica.”
Apropriadamente feliz e sozinha. Não solitária.
Conferi os termos em inglês. Alithea afirma estar alone, o que em inglês indica estar fisicamente só, e não lonely, que seria o sentimento de solidão, de sentir-se solitária. Nesse quesito, as duas línguas conversam bem em seus significados.
Apesar de muita gente confundir, estar sozinha e sentir-se solitária não é mesma coisa. Estar sozinha é condição de desacompanhada, já solitária, é sentimento, é sentir-se só, sentir solidão.
E solidão pode bater mesmo com alguém ao nosso lado, isso é certo.
A questão então é que, por estar sozinha, Alithea se transformou em mulher solitária nos relatos sobre o filme.

por que isso faz diferença na nossa interpretação do que é felicidade?
Como se isso não fosse suficiente, o próprio desenrolar da trama faz com que um olhar superficial entenda que sim, ela era solitária. Mas digo enfaticamente que não, não era. E não é porque ela disse com todas as letras, mas porque ela era completa, ainda que uma aventura pudesse vir a calhar, engrandecer, agregar.
Então, quando no enredo Alithea acaba fazendo seu primeiro desejo, amplamente alimentado pelas próprias histórias do gênio, é fácil ver seu pedido como uma solução à um problema inventado pela cultura padrão. Porque dentro dos padrões, Alithea sozinha, é solitária, e só pode estar em busca de um companheiro.
Minha visão, talvez até mais romântica que as daqueles que esperam um companheiro para tirá-la da solidão, é a de que sim, ela era perfeitamente adequada, apropriadamente feliz e sozinha. O que não impede que coisas boas aconteçam e agreguem e uma das dessas pode sim ser um relacionamento amoro. Mas, claro, não precisa ser ele, o único e exclusivo, que será o motor da nossa felicidade.
Afinal, essa seria uma ideia que nos prenderia, porque se só serei feliz com alguém, é inevitável que eu entenda que preciso estar com alguém para ser feliz. O que inclui até os casos em que esse alguém não vale a pena.
Por outro lado, é uma ideia que também nos deixa completamente livres da responsabilidade sobre nossa própria felicidade. Se ela depende da existência de outra pessoa, logo, fulano que dê os pulos dele para que eu seja feliz.
É uma coisa muito louca se a gente pensa friamente. a própria ideia de um padrão quando falamos em felicidade já soa estranha.
Afinal, somos indivíduos plurais, com interesses, características, necessidades e prioridades diversas e precisamos nos perguntar: por que minha felicidade deve vir pronta e engarrafada pelos padrões?

ficha técnica + onde assistir Era uma vez um gênio?
Se você ainda não assistiu o filme e ficou curiosa, ele está disponível no Prime Video.E, para ler outras edições da Fio Condutor, a newsletter do clube, clique aqui!
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